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A cura através da música

27 Jun

Este post inaugura, oficialmente, minha colaboração ao blog da Gio. A reportagem a seguir foi feita para a disciplina de Jornalismo Científico, do curso de Jornalismo da Univali (Universidade do Vale do Itajaí). A matéria será publicada na próxima edição do jornal da faculdade, o Cobaia.

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A cura através da música

A musicoterapia reúne música e ciência para solucionar diversas patologias e pode até causar ‘milagres’ em pacientes

Por Vivian Santana e Jamile Tonini

O que você sente quando ouve um acorde de uma guitarra ou o batuque de um pandeiro? A música traz sensações diferentes para cada pessoa. Cada tom, cada melodia, cada ritmo mexe com as nossas emoções, às vezes, de forma positiva e em outras, nem tanto. Entretanto, será que a música além de causar sentimentos, produz reações químicas e fisiológicas em nosso corpo a ponto de se tornar tratamento para diversas doenças?

A musicoterapia diz que sim. Apesar de esse método ter surgido após a segunda guerra mundial para tratamento de traumas de soldados americanos, no Brasil é muito recente, menos de duas décadas.

Mas, o que é musicoterapia?  Se logo que você ouviu esse nome, concluiu ser uma terapia de relaxamento que utiliza música, se enganou. São métodos criados em base na experimentação científica, sobre os efeitos físicos e químicos provocados no cérebro, a fim de permitir comunicação através dos sons.

Estudos como o do pesquisador Wolfgang Stefani, autor do livro “Psycho-Psysiological Effects of Music” (sem tradução no Brasil), relatam que essas ações psico-fisiológicas são medidas basicamente por quatro fatores: volume, altura, harmonia e ritmo. Os dois últimos são considerados os mais complexos e difíceis de se constatar a sua ação direta no cérebro, porém, eles conseguem produzir com mais eficácia mudanças de comportamento e reações do paciente que recebeu o estímulo.

A professora do curso de música da Univali e musicoterapeuta Liza Amorim, 49 anos, confirma a teoria de Stefani ao relatar alguns métodos utilizados durante as sessões. Segundo a professora, a percussão é um dos instrumentos mais indicados para várias patologias, principalmente para pacientes com dificuldade de se comunicar, como pessoas que possuem distúrbios psiquiátricos, autismo e até mesmo deficiência auditiva. “A vibração que a resposta da percussão devolve para a mão do paciente com essa deficiência traduz um tipo de comunicação gerada pelo som, o que ele não pode ter de nenhuma outra forma”, explica.

As sessões de musicoterapia, em sua maioria, não utilizam fala, a intenção é conseguir se comunicar com o paciente pela música e assim ajudá-lo a melhorar sua comunicação com o mundo externo ou como método para que ele adquira ou acelere novas percepções com o corpo. A música tem um efeito cerebral, celular, e sanguíneo, em todos os sentidos.  “As pessoas não entendem e não admitem que a música pode causar efeitos milagrosos em pacientes”, e no Brasil devido às outras áreas médicas, “a musicoterapia ainda tem pouca receptividade”, acrescenta Liza.

Desse modo a música, com o auxilio das experimentações científicas, ganhou essa nova função – ajudar no tratamento de doenças. Mas, será que ouvir música em casa ou fazer uma aula de algum instrumento é musicoterapia?

É preciso ter cautela, pois apesar de ser um tratamento que não utiliza remédios, essa terapia só pode ser clinicada por um profissional adequado com formação ou especialização na área. Em nenhum dos casos apresentados acima há a presença de um fator principal dentro desse tipo de tratamento: trabalhar as reações e respostas do corpo. Ou seja, sujeitar o paciente a sons que produzam efeitos no cérebro condizentes com a patologia em questão. Diferente de uma aula, a musicoterapia não precisa ensinar nada, é uma terapia livre.“Existe toda uma pesquisa. Primeiro é necessário saber o histórico familiar, musical, e toda vivência da pessoa em relação a isso para pesquisar que tipo de música pode ter efeito sonoro”, esclarece a musicoterapeuta Liza Amaral.

Apesar de ser uma terapia clínica, é pouco conhecida pelos profissionais de psicologia. Para a maioria deles, a música é utilizada como um auxiliar para outras metodologias terapicas, como no relaxamento. No entanto, os estudos de psicologia comprovam que a música produz reações no cérebro que desenvolverá respostas do corpo humano.

“Dentro da literatura de psicologia existem os estudos de sensações e percepção auditiva. Essas relatam várias ações que a música produz no cérebro, sendo estímulos ou inquietações. Porém, o mais próximo que se chega a utilizar a música nas sessões é como apoio de fundo a fim de o paciente relaxar”, explica a professora de psicologia da Univali, Geovana Delvan Stuhler.

Estudos produzidos na área de musicoterapia comprovam sua relevância além de artigos científicos e os próprios pacientes. Liza trabalhou mais de dez anos em Florianópolis com a aplicação clínica de musicoterapia, e conta que de todos os seus pacientes, quem mais chamava a atenção era uma criança. Por causa da Síndrome de Down, a menina não tinha a fala desenvolvida, se comunicava apenas por ruídos. Após alguns meses de sessões, ela conseguiu se comunicar por telefone. “A primeira vez que ela me ligou, ouvi alguns resmungos e suspiros, no entanto, decidi não desligar, durante o tempo da ligação ela conseguiu produzir sons que mesmo disformes produziam sentido, o que foi melhorando nos próximos telefonemas”.

Para quem é indicada a musicoterapia? Em casos de níveis elevados de stress, ansiedade, timidez excessiva, distúrbios de aprendizagem e comportamento, Alzheimer, epilepsia, Síndrome de Down, autismo, problemas psiquiátricos ou sequelas provenientes de ataque cardíaco e enfarte. É uma área terapêutica que pode servir para qualquer patologia. “Não tem público específico, podemos atender desde a gestação até a morte”, afirma a musicoterapeuta Bruna Pierami.

A musicoterapeuta, Bruna Pierami, destaca que no Brasil esse tipo de terapia é mais praticada em reabilitações e síndromes.

Com 22 anos e recém formada no curso de musicoterapia da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo) Bruna foi chamada pela escola de música Musiclin, em Balneário Camboriú, para implantação dessa terapia. A musicoterapeuta destaca que o forte no país é o uso do tratamento em reabilitações e síndromes, além de ser utilizado para o alívio de dores. Nesse caso, a música passaria no mesmo canal da dor, e tiraria o foco dela.

Há duas grandes áreas na musicoterapia: a ativa e a receptiva. A primeira é mais utilizada, pois não é necessário saber tocar algum instrumento. Bruna lembra com carinho de uma paciente com Mal de Parkinson, que andava, mas quando sentava por muito tempo não conseguia se levantar e caminhar. “Com essa senhora trabalhamos o ritmo. Contávamos 1, 2, 3 e ela ia sentindo o movimento”. Quando a paciente se levantava elas cantavam e a senhora conseguia andar normalmente. Bruna também usou músicas de momentos felizes da vida da paciente para elevação de humor, debilitado devido à doença, e o resultado foi “gritante”, comenta feliz.

No Hospital São Paulo, na capital paulista, Bruna teve a oportunidade de trabalhar com pacientes psiquiátricos e montar uma banda. Como alguns pacientes possuíam conhecimento e apreciavam tanto a música, através dela foi possível se aproximar deles. “Fazíamos composições e eles queriam se apresentar, mas não serem reconhecidos como uma banda de pacientes e sim por serem uma banda boa” revela.

A musicoterapia, ainda busca seu lugar ao sol no mercado clínico de Santa Catarina. Na região do Vale do Itajaí, existem aproximadamente cinco clínicas que disponibilizam esse tipo de terapia, porém ainda em busca de adeptos e pacientes.

No inicio de 2010, a musicoterapia foi reconhecida como profissão pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) e também é reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como uma terapia. Para ser profissional da área é preciso ser graduado em musicoterapia ou bacharel em música com pós-graduação em musicoterapia. Ainda são poucos estados do país que oferecem o curso.

Do grito à orquestração: a evolução da música

Através do canto e da dança surgiu a música, então os homens apreenderam a usar chifres de animais e conchas para fazerem sons e ainda com a pele dos animais criaram instrumentos primitivos. Esse foi o passo fundamental para a evolução da música. A harpa, um dos instrumentos mais antigos, apareceu no Egito 2700 a.C., com dois metros de altura e seis a oito cordas. Trompetes de bronze também foram usados por povos da antiguidade, em cerimônias religiosas e por militares para aterrorizar adversários.

Os povos antigos criaram os instrumentos de corda, sopro e percussão. Para alguns a música considerada religiosa, tinha poderes mágicos, como curar doenças. Os gregos consideravam Apolo o deus da música e curador. Ainda hoje, povos, como algumas tribos indígenas, acreditam no poder de cura através de sons.

No século XIX, com a crescente importância dos grupos instrumentistas, a orquestração evoluiu. Assim apareceu o maestro, mestre da orquestra. A partir daí, com o progresso da ciência e da técnica os instrumentos se aperfeiçoaram e a música se expandiu cada vez mais.

Fonte: Livro “Uma Orquestra e seus Instrumentos” de José Féron.

No Brasil, apenas em 2008 o governo federal sancionou a Lei 11.769 para tornar a música matéria obrigatória do currículo das escolas brasileiras.  Até 2011, todas as escolas do país terão que aderir a essa Lei, desde a educação infantil até ao ensino médio.

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Para mais informações sobre esse tema

Sites:

http://www.musicoterapia.mus.br/

http://www.musicoterapiabrasil.org/Novo/portal/

http://www.amtrj.com.br/

Revista científica:

Revista Brasileira de Musicoterapia – revista científica oficial da União Brasileira das Associações de Musicoterapia – UBAM.

Livros:

“Musicoterapia desafios entre a modernidade” de Marly Chagas e Rosa Pedro, editora Mauad X.

“Musicoterapia e a reabilitação do paciente neurológico” de Marilena do Nascimento, editora Memnon.

“A música no seu cérebro” de Daniel J. Levitin, editora Civilização Brasileira.

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Eventos:

XII Fórum Paranaense de Musicoterapia – 04 a 06 de julho, em Curitiba.

III Congresso Internacional de Música, Neurociência, Arte e Terapia – 20 a 22 de agosto, em São Paulo.

X Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia (ENPEMT) – 30 e 31 de outubro, em Salvador.

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