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Nodame Cantabile: Movimento Final, parte 1

13 Jun

“De todas as invenções humanas, a mais maravilhosa de todas é a música. A natureza, a filosofia, a vida… e, então, o amor… A música consegue expressá-los todos. Comparada a essa maravilhosa coisa chamada música, a linguagem é tão imperfeita.

Eu sempre caminhei e vivi com a música. Fracasso e glória… Um encantador encontro… Um doloroso término… A sinfonia da minha vida está se aproximando do movimento final. É hora de terminá-la. Antes que tudo seja perdido no mar de memórias.”

(Stresemann – Nodame Cantabile: Movimento Final)

Uma breve introdução

Para quem não conhece, Nodame Cantabile conta a história de dois estudantes de música: Megumi Noda, apelidada de Nodame, e Shinichi Chiaki. Ela estuda piano, ele, violino e piano, embora deseje ser maestro. Enquanto a garota é desligada e vive em seu ‘próprio mundo’, Chiaki é o típico certinho, arrogante. Os dois são talentosos e, ao longo do enredo, vão se destacando na comunidade musical.

Nodame não é muito disciplinada, não segue a pauta corretamente, inventa ou pula notas e, apesar de estudar piano, quer ser professora de creche(!). Já Chiaki, mesmo querendo fortemente ser maestro, desiste da possibilidade devido a seu pavor enorme de viajar para o exterior, seja por avião ou navio. Estando no Japão (arquipélago de ilhas), a impossibilidade de se deslocar a outros países impossibilita a carreira desejada. Entretanto, a chegada do maestro Franz Stresemann (chamado de Milch sensei por Nodame) na faculdade onde estudam, somando-se ao próprio encontro de Chiaki e Nodame, resultam na superação de seus problemas e traumas, culminando em carreiras promissoras. Ao mesmo tempo, o casal vai amadurecendo e se encaminham, muito lentamente, para um relacionamento amoroso.

Nodame Cantabile foi criado por Tomoko Ninomiya inicialmente em mangá, entre julho de 2001 e outubro de 2009, totalizando 23 volumes. Além do dorama, o qual foi ao ar em 2006, também possui versão em animê.

O movimento final, parte 1

Após 11 episódios do dorama e 2 especiais para a TV, o final de Nodame Cantabile, dividido em duas partes, chegou aos cinemas japoneses em dezembro de 2009 e abril deste ano. E, há alguns dias, foi disponibilizada na rede a primeira parte do filme legendado em inglês, pelo grupo Sars Fansubs.

O filme começa a partir de onde os especiais terminaram, dando continuidade à vida de Chiki e Nodame em Paris. Assim como no primeiro especial, essa primeira parte concentra-se basicamente em Chiaki enquanto Nodame está estudando para uma prova no Conservatório.

Atenção, o texto a seguir contém spoilers!

Logo no início, descobrimos que o adversário de Chiaki no concurso ocorrido nos especiais, Jean Donnadieu, mesmo tendo ficado em segundo lugar, torna-se o regente titular da famosa Orquestra Deschamps, havendo forte propaganda em cima disso. Em contrapartida, Chiaki é chamado para o mesmo posto na Orquestra Roux-Marlet, a qual Stresemann conduziu em sua juventude. Apesar de ter sido bastante famosa, a orquestra não tem mais o prestígio de antes. Portanto, a felicidade do recém adquirido emprego logo acaba quando Chiaki fica a par do estado em que se encontra a orquestra: problemas financeiros, poucos ensaios, membros se demitindo… E, pior, há poucos dias de ensaio para a próxima apresentação e ainda é preciso ganhar o reconhecimento dos músicos e, principalmente, de Thomas Simon, o spalla (primeiro violino). Nesse meio tempo, a famosa pianista Song Rui vem à cidade estudar no mesmo conservatório que Nodame, deixando-a enciumada quando a garota encontra Chiaki, em situações tais como os amigos trocarem beijinhos de cumprimento.

Com a falta de membros na orquestra é feita uma seleção e, Kuroki Yasunori, surpreendendo Chiaki, pois não contou que iria se candidatar, é escolhido para o oboé. Mesmo com novos integrantes, quando chega o dia do concerto alguns músicos desistem de tocar e é preciso encontrar substitutos de última hora. Chiaki decide chamar Nodame para tocar celesta, o que a deixa completamente feliz, pois seu sonho é se apresentar com Chiaki. E esta é uma das sequencias mais legais e hilariantes do filme, pois Nodame sai correndo pela cidade até o local d0 ensaio, encontrando personagens do seu animê preferido (Puri Gorota) e celebrando a realização de seu sonho.

Mas, sua felicidade dura pouco. Chegando lá encontra Rui, que foi visitar a orquestra, da qual fez parte na adolescência e, por um mal entendido, todos acham que Chiaki convidou a pianista famosa, ao invés dela, e ficam muito contentes. Quando ele está prestes a corrigir o erro, Nodame diz para perceber o que está acontecendo, dando a entender que é melhor deixar como está. E, como é de se esperar, o concerto acaba muito mal, devido à falta de harmonia entre os colegas.

Não bastando o desafio de fazer com que a orquestra resgate o prestígio de outrora, Chiaki recebe o programa com as músicas para a próxima apresentação: Abertura 1812 e Sinfonia nº 6 (Pathétique) de Tchaikovsky, e Concerto para Piano nº 1 de Bach. E, obviamente, trata-se de um grande desafio, pois a Abertura 1812 raramente é tocada na França porque é sobre a derrota de Napoleão. Nesse momento, Chiaki descobre que Stresemann estava por trás de sua contratação e que esse é um desafio dado para comprovar seu talento. Como é de se esperar, a orquestra consegue conquistar o público, arrancando calorosas palmas e ‘bravos’. Na última música, Chiaki além de conduzir também toca piano, surpreendendo Nodame e levando-a as lágrimas e, aparentemente, à frustração… seu sonho parece cada vez mais longe. Ela diz: “isso não é justo”.

A primeira parte do filme termina com Chiaki se consolidando como maestro, ao fazer ressurgir o prestígio da orquestra. Nodame percebendo que mais uma vez ficou para trás. E Stresemann, enquanto compõe, concluindo: “É como o esperado. A glória de Chiaki é o sofrimento de Nodame. Minha sinfonia agora está no seu movimento final. E a sinfonia de amor e juventude que eles têm tocado também está no seu movimento final. Que tipo de final o feitiço que eu lancei trará? Isto, nem mesmo eu sei. É possível que eu tenha exagerado. E, será que eu tenho o tempo restante para ver o final?”

Ao final, algumas cenas do próximo filme mostram Chiaki se perguntando se ele não forçou Nodame a segui-lo, se ela não teria sido mais feliz se tivesse ficado no Japão, porém chegando a conclusão de que ele não consegue deixar de levá-la ao palco.

Algumas observações

Algo que eu não tinha percebido muito durante o dorama era a intervenção do Stresemann. No filme, ele parece ser o escritor, ou melhor, o compositor e maestro que conduz a relação de Nodame e Chiaki. E, tal como uma peça musical, faz referências aos movimentos para descrever o desenvolvimento do casal, e por isso o nome do filme. Claro que no dorama ele chama a atenção dos dois para a situação de cada um, mas parecia bem mais sutil comparando com o filme.

Uma das coisas que ficaram faltando foi uma presença maior dos coadjuvantes, com seus conflito e histórias próprias. O enredo fica muito concentrado em Chiaki, com algumas aparições cômicas de Nodame e os demais (embora as cenas da próxima parte do filme dão a entender que muitos personagens irão reaparecer).  Além disso, há uma retrospectiva de todo o desenrolar da história até então que é bem longa e pedante (e olha que eu sou bem esquecida e esse tipo de flashback geralmente funciona comigo).

Outro detalhe que me incomodou um pouco tem a ver com o que mais gosto do dorama: a utilização de elementos da linguagem do mangá (sabe aquele exageros de um bater no outro e este voar longe? Ser arrastado, levantado, como se não pesasse nada…). No dorama esses tipos de cenas acontecem muito e, geralmente, são bem produzidas. No filme, fica muito visível que ao invés de uma pessoa, trata-se de um boneco. Legítimo ‘defeito especial’. Geralmente não dou bola pra isso. Ficção é ficção, mesmo a mais verossímil e baseada em fatos reais. O problema é que se você tem um padrão no dorama, melhor manter no filme. E no dorama ficava quase imperceptível o uso de bonecos.

E, por fim, uma das coisas que me chamam a atenção é perceber, através deste dorama e filme em específico, como os japoneses realmente parecem diferenciar TV de cinema. Não só pelo uso de película, mas os enquadramentos de cenas, movimentações de câmeras e demais elementos da linguagem audiovisual realmente são empregados de formas diferenciadas em cada meio. Mesmo o mais leigo sobre o assunto, acredito, percebe a diferença entre as imagens do filme e do dorama. Não se trata de levar o dorama para o cinema, assim como não foi o caso de levar o mangá para a TV, mas como a história passa por cada meio, mantendo sua integridade, mas compactuando com as possibilidades do meio em que é transmitida. E eu acho muito legal isso. O que me faz mais uma vez lamentar não poder assistir num cinema este e outros filmes japoneses.

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