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Sobre a FSN Conference e eventos acadêmicos sobre fãs

8 Nov

Nesta sexta, o grupo de pesquisa CultPop da Unisinos, do qual pertenço, vai realizar o encontro “15 anos de Estudos de Fãs no Brasil”. Pensando na data e refletindo sobre essa área no nosso país, resolvi fazer um resumo breve sobre a nossa participação num dos mais importantes eventos internacionais de estudos de fãs.

15 anos

Vale ressaltar que essa área é muito nova ainda. Os estudos de fãs, propriamente dito, podem ser datados a partir dos anos 1980 no cenário internacional, sendo a década seguinte mais marcada como inicial, com obras como “Invasores de textos” (“Textual Poachers”) de Henry Jenkins. No Brasil, entretanto, apenas no começo dos anos 2000 surgem as primeiras pesquisas focadas realmente em fãs (não em audiências, leitores, ouvintes…) e com preocupação em teorizar e buscar uma metodologia para estudá-los. A primeira tese que temos, para se ter noção, é do Dr. Bruno Campanella, defendida em 2010, intitulada “Perspectivas do cotidiano: um estudo sobre os fãs do programa Big Brother Brasil”, a qual inclusive recebeu o prêmio Compós de melhor tese aquele ano.

Nos últimos anos, tenho acompanhado um maior desenvolvimento desses estudos, porém, ainda há dificuldade de acesso de bibliografia, de momentos para discussão entre colegas e mesmo termos um espaço próprio para discussão, seja em eventos específicos, ou mesmo em GTs dentro de eventos já estabelecidos (o que espero que mude no futuro!). Na minha experiência, como alguém que vem estudando fãs desde 2010, chega a ser até normal eu ter que explicar o que é fã para as pessoas (e refiro-me aqui a acadêmicos mesmo), porque poucos entendem quando digo que estudo fãs, mostrando a falta de reconhecimento dessas pesquisas. A pergunta que quase sempre segue é “o que é fã?” ou “como assim ‘fãs’?”. Então, ao invés de explicar minha pesquisa, geralmente, tenho que explicar primeiro o que é um fã para as pessoas. Por isso estou muito orgulhosa pela iniciativa da minha orientadora, Dra. Adriana Amaral, por este evento na sexta, além de estar muito feliz de estar na organização e em um painel junto com meus colegas: o doutorando Eloy Vieira e a mestranda Larissa Becko.  

Essa introdução toda se faz necessária para eu poder resumir o que é participar de uma conferência como a promovida pela Fan Studies Network. Primeiro, porque dá vontade de chorar de emoção de ver tanta gente reunida, de tantos países, para falar sobre fãs! Com tantas pesquisas diferentes, seja pelos temas como pelas abordagens teórico-metodológicas, com os principais teóricos presentes entre a gente (ou como escuto dos colegas: nossa bibliografia ambulante!), não dá para não amar essa conferência! Eu tive a oportunidade de participar em dois anos consecutivos (2016 e 2017), e não posso deixar de ressaltar como foi importante para mim ter estado lá e agradecer aos organizadores pela iniciativa e pelo belo trabalho que fazem (porque não vi nada de contratempo ou desinteressante nas duas edições).

No primeiro ano que fui, eu estava mais tímida com meu inglês nunca antes posto à prova para conversação com nativos da língua inglesa mesmo (até o momento, minhas primeiras viagens ao exterior se devem ao FSN para ir à conferência) e acabei não conversando tanto com os colegas de outros países. Em 2016, tive o prazer de fazer parte da mesa temática “Pls come to Brazil: Fan Studies and transcultural perspectives on brazilian digital fandoms and haters” com a doutoranda Camila Monteiro, Dra. Simone Pereira de Sá e Dra. Adriana Amaral.

pls-come-to-br.jpg

Painelistas do “Pls come to Brazil” no FSN Conference 2016. Detalhe atrás: a fachada do prédio da East Anglia University, em Norwich, onde aconteceu o evento, foi utilizada para os filmes dos Vingadores como seu quartel general.

Nela, apresentei uma pesquisa que trazia as indagações para a reformulação do meu projeto de tese. O título é “Transcultural fandom: fans and industry in Brazilian Whovians”. E foi ali que comecei a indagar sobre a relação entre indústrias e fãs, chegando ao fandom de romances femininos e sua relação com as editoras brasileiras, foco da minha pesquisa para o doutorado.

Este ano apresentei parte da minha tese com minha orientadora, Dra. Adriana Amaral (que infelizmente não pôde ir pessoalmente), com o trabalho “Fans, objects and book identities: understanding romance novel fans in the South of Brazil”.

fsn 2017

Entre o material que recebemos na edição de 2017 estava este leque. Vale lembrar que em inglês a palavra é a mesma para fãs e leque: “fan”.

Além de ter sido para mim muito importante essa apresentação, o evento foi especial por mais dois motivos: a Fan Studies Network Conference estava comemorando 5 anos de existência e a Universidade de Huddersfield, onde se realizou a edição, anunciou que está abrindo o primeiro programa de mestrado e doutorado em estudo de fãs. Até onde sei é a primeira pós-graduação focada em fãs no ocidente, o que é um grande motivo para comemorar, assim como o aniversário da conferência.

Além da ótima organização do evento, marcou-me muito a possibilidade de trocar experiências com pesquisadores de diferentes países. Em dado momento, por exemplo, lembro-me de estar sentada numa mesa conversando com uma indiana e uma russa sobre nossas pesquisas e visões sobre as teorias de fãs, que possuem uma forte perspectiva europeia e americana.

Acho bacana também salientar e parabenizar a participação da colega Camila Monteiro, atualmente doutoranda em Huddersfield, que compôs a organização da edição de 2017, além de ter participado em outras edições. Além de destacar a apresentação do professor na UFPE, Dr. Thiago Soares, trazendo mais exemplos da América Latina, através da realidade dos fãs da Madonna em Cuba em ““Madonna, warrior like Cuba”: Political Affections of Madonna’s Fans in Cuban contexto” (escrito com Mariana Lins, que infelizmente não pode participar). 

Thiago

Prof. Dr. Thiago Soares na FSN Conference 2017 junto com outras pesquisadoras.

Ao final da FSN Conference de 2017, Matt Hills palestrou sobre os últimos 5 anos dos estudos de fãs. Em resumo, afirmou a consolidação da área, explicando como algumas práticas de fãs pesquisadas aumentaram enquanto outras foram mais marginalizadas. Principalmente no que tange as questões de pirataria, gênero e etnia e classe, sendo estas duas últimas mais escassas nas pesquisas. Destacou que a pesquisa qualitativa é ainda bastante dominante, mas que a mineração de dados (“data mining”) está surgindo como uma nova metodologia (embora questione se grandes audiências, em pesquisas como sobre a Netflix, todos possam ser considerados fãs), além de dizer que novos modelos de estudos de fãs estão sendo construídos com políticas culturais variantes. E por fim, chamou a atenção que anteriormente pensava-se as comunidades de fãs como específicas e interpretativas, enquanto hoje há uma “fanização” (“fanization”), o que não necessariamente representa uma comunidade de fãs singular ou única, mas uma variedade de grupos com atividades interindependentes.

As chamadas não abriram ainda para a edição de 2018, mas fique atento no site, se você se interessar. Outra boa notícia é que agora teremos também uma edição do evento em nosso continente! A primeira edição da FSN North America Conference acontecerá em outubro de 2018 na DePaul University, em Chicago, nos Estados Unidos. As chamadas já estão abertas aqui.

Agora é sonhar com uma versão latina pra gente! Mas enquanto isso não se torna realidade, acompanhe nosso evento na sexta! Vai ter streaming ao vivo! É só colar no Facebook do grupo aqui.

 

 

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Fãs e cultura pop japonesa na Intercom 2011

17 Ago

Este ano me chamou a atenção o volume de artigos sobre fãs e cultura pop japonesa na Intercom, congresso de Comunicação que acontece em Recife, de 2 a 6 de setembro.

Ontem relacionei no blog Bibliografia de pesquisas sobre fãs e fandoms os trabalhos sobre fãs, além de relacionados ao mundo pop, geek e nerd, então confira a lista aqui.

A seguir os trabalhos envolvendo cultura pop japonesa:

Ficção televisual japonesa de longa duração: um pouco de tudo, mas diferente de todos

MISAKI TANAKA (UFPB)

Entre os programas televisuais do Japão, há um ficcional de duas horas de duração, que tem as mulheres casadas com idade acima de 40 anos como público primário, considerado uma das marcas das produções televisuais daquele pais. Este trabalho destaca alguns aspectos que se repetem em todos os programas desse gênero, como o esquema básico e o uso dos planos, apontando as suas características e diferenciais em relação a outros ficcionais. (DIA 6 | 9h – 10h45 | Local: Bloco G4 | Sala 002)

Produção independente e reprodução subalterna de mangá na cibercultura

Tatiane Hirata (UFMT), Yuji Gushiken (UFMT)

As histórias em quadrinhos japonesas – chamadas de mangás – e sua contraparte independente, chamada de doujinshi, possuem, além da circulação oficial em forma de revistas impressas ou conteúdo digital pago, uma circulação digital e não licenciada engendrada pelos próprios fãs. Reunidos sob a prática do scanlation (digitalização e tradução), os fãs espalhados pelo mundo reinventam os processos de re-produção, circulação e consumo de mangá neste período marcado pelos processos de convergência midiática e demandas por formas sempre renovadas de rituais de sociabilidade no anonimato urbano. Relata ainda os modos como no capitalismo a produção de valor simbólico tende a torna-se produção de valor econômico na medida em que práticas midiáticas ditas ilegais tornam-se normativamente em trabalho. Este artigo se constitui na perspectiva dos estudos da comunicação como ciência da cultura. (DIA 6 | 9h – 12h | Local: Bloco G | Sala 509)

Mangá, anime e violência: o bullying e a cultura pop japonesa.  

Fernando Rizzaro de Almeida (ICICT Fiocruz)

O objetivo deste trabalho é analisar a violência contra crianças e adolescentes, em especial sob a forma de bullying e a possível relação existente entre violência e o consumo de produtos da cultura pop japonesa. Na primeira seção, é feita a definição de violência sob diversos prismas, em especial Etienne Krug (representando a OMS) e Anthony Arblaster. A segunda seção abarca a definição de mangá e anime segundo Cristiane Sato e Scott McCloud, suas características e relação com violência. A terceira, e última, seção discute as implicações da cultura pop japonesa na sociedade hodierna. (DIA 6 | 9h – 12h | Local: Bloco G | Sala 607)

Mangá: Moderna Tradição da Comunicação por Imagens

Taís Marie Ueta (UFMT), Yuji Gushiken (UFMT)

O mangá (quadrinhos japoneses) é um dos produtos da cultura pop japonesa mais difundidos e consumidos entre jovens e adultos, particularmente ao final do século XX, para além das fronteiras japonesas. Neste artigo, narra-se a trajetória do mangá para atingir o status de fenômeno global. Em seguida, pontua-se a caracterização visual do mangá, que evoca uma já histórica dimensão imagética dos processos comunicacionais na cultura japonesa, o que inclui a tradição da escrita. Também é abordada a hipótese de como o sucesso dos quadrinhos japoneses tem relações diretas com a demanda por imagens característica da contemporaneidade. O artigo é escrito na perspectiva teórica da comunicação como ciência da cultura. (DIA 6 | 14h – 18h | Local: Bloco G | Sala 509)

Na Intercom Júnior, infelizmente, não são disponibilizados os resumos:

Os fãs e os Doramas: a cultura participativa no processo de difusão e colaboração no ciberespaço

Andreza Jackson de VASCONCELOS (Universidade Federal do Pará)

(4 de setembro | 9h – 12h | BLOCO B – SALA 503)

Uma análise das estratégias comunicacionais utilizadas durante o jogo “Pokémon”

Irina Coelho MONTE (Universidade Federal do Piauí)

(6 de setembro | 9h – 12h | BLOCO B – SALA 503)

O seguinte, apesar de não ser especificamente sobre, traz em seu título referência à cultura pop japonesa:

Olha a roupa de pokebola da Fátima Bernardes: significações do figurino telejornalístico através dos comentários do twitter

Agda Patrícia Pontes de Aquino (UFPB)

Este trabalho busca na rede social twitter uma forma de observar a nova relação disposta entre os espectadores e os conteúdos televisuais, em especial o telejornal. Comentários e apontamentos que antes poderiam ficar restritos ao ambiente familiar, individual ou de grupos específicos, agora passam a ser difundidos e massificados, além de colaborarem com a movimentação de públicos que transitam entre a Internet e a televisão convencional. O figurino dos apresentadores do Jornal Nacional, da Rede Globo, serve de ilustração para colaborar no entendimento do novo papel que os jornalistas de TV assumem na sociedade contemporânea. Através dos comentários do twitter identificamos a multiplicidade de significações que o público pode produzir com relação a esses conteúdos imagéticos, além de apontar para um novo entendimento do papel do figurino na composição da imagem do profissional de TV. (DIA 6 | 9h – 12h | Local: Bloco G | Sala 509)

A lista completa dos trabalhos pode ser acessada aqui.

Agora é esperar disponibilizarem os artigos para que possamos lê-los! 

Bibliografia sobre fãs

25 Jul

A prof.ª Dr.ª Adriana Amaral e a mestranda Camila Monteiro estão reunindo pesquisas sobre fandoms em http://bibliografiapesquisafas.tumblr.com/.

Em seu blog, Adriana comenta:

 Devido a minha pesquisa sobre fandoms de música, fazia um tempo que eu queria compartilhar bibliografias (artigos, livros, monografias, dissertações e teses) sobre fãs e fandoms, uma vez que recebo muitos pedidos a respeito disso. Conjuntamente com a Camila Monteiro (@camisfm), minha orientanda de mestrado conseguimos dar início a isso através do tumblr Bibliografia de Pesquisa sobre Fandoms que fizemos com esse propósito. Logicamente esse é apenas o início.  Atualizaremos a lista na medida do possível o e contamos com a ajuda da inteligência distribuida da rede para nos passar mais referências. Ou seja, se você não encontrar alguma referência não é nada pessoal, ou não conhecemos, ou esquecemos, mas basta nos enviar que colocamos lá 😉

Para quem se interessa ou pesquisa fãs não dá para deixar de acessar e contribuir com o projeto!

O que o futuro reserva para o scanlation?

29 Jul

Há algumas semanas a comunidade leitora de scanlations em inglês ao redor do mundo está preocupada. Editores americanos juntamente com editores japoneses resolveram acabar com os sites agregadores desse tipo de material. A notícia que vem circulando na internet já prometia que os principais alvos seriam cerca de 30 sites de scanlation, entre eles o onemanga.com e o mangafox.com.

A razão principal da “luta contra o scanlation” seria a de que os sites de scans traduzidos para o inglês estão entre os mais acessados da internet (conforme a lista, o OM está em 830º lugar, com mais de 4 milhões de visitantes únicos e mais de 1 bilhão de page views) e acabam gerando lucro com o material (pelos anúncios nos sites) sem ter licença para isso, enquanto os mangás legalmente publicados estão atualmente enfrentando uma queda de vendas.

Antes mesmo de alguma medida mais oficial seja tomada, o One Manga resolveu, por conta própria, tirar o corpo de fora rapidinho do problema: este será seu último mês de funcionamento (ou seja, mais 2 dias!). Ao abrir o site, uma mensagem explica a decisão tomada. Traduzi o comecinho para vocês lerem, o principal mesmo:

um fim para tudo, para as coisas boas também

Dói-me anunciar que esta é a ultima semana de leitura de mangás no One Manga (!!). Editores de mangá recentemente mudaram de posição em relação ao scanlation de mangá e deixaram claro que não o aprovam mais. Decidimos obedecer a seus desejos, e remover todo conteúdo de mangá (independentemente do status de licenciamento) do site. A remoção do conteúdo será gradual (para que você possa ao menos terminar algumas de suas leituras em andamento), mas esperamos que todo conteúdo seja eliminado logo na próxima semana (RIP OM Julho 2010).

E agora? Nós não temos muita certeza até o momento, mas temos algumas ideias que gostaríamos de experimentar. Até então, os fóruns do One Manga continuam ativos e encorajamos todos vocês a continuar usando-os”.

–  Zabi

Por enquanto, o que está em jogo são os sites que oferecem os scanlations de mangás, pelas razões citadas acima. Por enquanto, não são os scanlators, ou seja, os grupos que fazem tal trabalho, que estão na mira. Por enquanto.

Reação

Dentro da comunidade dos fãs já se fala de voltar ao IRC (o que no meu caso seria começar a usar…espero não precisar!) e de que ficaria mais difícil conseguir os mangás escaneados e traduzidos (o que nas entrelinhas revela não o fim do scanlation, mas meios mais subversivos para consegui-lo).

O grande detalhe é o de que apesar da empreitada (ou “caça as bruxas” como alguns fãs estão se referindo) estar sendo realizada entre americanos e japoneses, quem mais perde são os leitores de países como o nosso, onde a diversidade de títulos é pouca, e sites como esses contribuem para sanar essa escassez.

Além das discussões que estão rolando em fóruns e afins do fandom de cultura pop japonesa, surgem “ações” como a petição “Don’t stop scanalations sites!”, que já soma  quase duas mil assinaturas em apenas 6 dias. (O engraçado é ler a justificativa da petição: pede que todos se juntem para “salvar o mangá”, afinal como ler os capítulos que demoram a ser publicados nos EUA como Naruto e Vampire Knight? “You will not be allowed to read them untill they come out in the volumes. this is an outrage”. Outrage?!  Só digo uma coisa: HUAHUAHUHAUHAU! Não que esse lado, a questão do tempo, não seja importante, mas não acredito ser a principal).  Há também uma petição para que o site One Manga continue, porém com um pouco menos de assinaturas. Enfim, concordo com a Valéria Fernades, do blog Shoujo Café, quando comenta sobre o assunto: “não acho que as scanlations irão morrer, mas o futuro poderá ser difícil”. Agora é aguardar as cenas do próximo capítulo dessa novela.

E você, o que pensa sobre o assunto? Deixe a sua opinião!

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