O 20 de setembro por duas irmãs gaúchas

20 Set

Rio Grande do Sul. Feriado. 20 de setembro. Um fato curioso acontece no twitter. O termo “Revolução Farroupilha” fica em 1° lugar no Trending Topics do Brasil (em 5° está “20 de setembro”, e em 8°, “gaúchos”) e, para maior espanto, também no mundial! Os internautas comentam como o povo gaúcho conseguiu realizar esse ato de (des)bravura, pois o mesmo não aconteceu com o 7 de setembro, no país. Intrigadas com o acontecimento, resolvemos escrever sobre a data, quase um mito dos pampas.


O herói ladrão, uma guerra civil, e interesses da monarquia

Por Vivian Santana

Bento Gonçalves conseguiu sua fortuna saqueando. Os “farroupilhas” constituíam pequena parcela da população da época e visavam apenas seus interesses próprios. Os fatos foram transformados pelo viés da indústria cultural e poucos conhecem, contam a história real. Entre eles está o jornalista, historiador, e professor Dr. Tau Golin, com quem eu e a Giovana tivemos o prazer de ter aula e descobrir o lado B da História gaúcha. Autor de livros como “A Ideologia do Gauchismo” e “Bento Gonçalves – O Herói Ladrão”, Golin revela no observatório da imprensa: a maioria de estancieiros e charqueadores mobilizou as suas tropas em favor da causa monárquica. Durante os primeiros anos, os confrontos bélicos tiveram conotação de guerra civil, com o Rio Grande rural dividido. A maioria, especialmente nas cidades, enfrentou os rebeldes”.

No mesmo artigo, o professor ainda comenta: “A ‘guerra de libertação’ do Rio Grande existe somente na imaginação. O constrangedor é que os artífices da memória impuseram ao Rio Grande do Sul um líder autoritário e antiparlamentar, contraditoriamente adotado como ícone protetor da Assembléia Legislativa, com direito a mural e representação em bronze no pórtico de entrada, e os senhores de escravos como heróis regionais”.

Em 2006 o texto “Sapateando na Bosta de 20 de Setembro”, escrito pelo jornalista e historiador Rodrigo de Andrade, publicado no jornal Cadafalso, de Passo Fundo/RS,  gerou grande polêmica sobre a visão oficial da data: “deve-se lembrar que os gaúchos perderam (e feio). Porra, só um estúpido comemora uma derrota! Hoje em dia, estudos sérios revelam que esse passado mitificado, celebrado pelos embombachados, não passa de mero folclore. (…) Todo esse movimento foi criado em grêmios estudantis porto-alegrenses no início do século passado. Desde então, se produz uma visão enganosa do passado, construída para agradar (leia-se domesticar) as populações? gaúchas? do presente” (leia na íntegra aqui). O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) indignado processou o jornal.


A espada degoladora

Por Giovana S. Carlos

Acho que uma maioria estuda História (na época do colégio) e vê datas como a de hoje e pouco ou nada relaciona com a sua própria História e a de sua família.

Apesar de não achar nada legal as comemorações feitas em torno de uma guerra e o discurso construído, no caso, uma demonstração de ser gaúcho naquela lógica do hino do estado “sirvam nossas façanhas de modelo pra toda terra”, não dá para esquecer, ou apagá-la. Ter conhecimento da História é importante, o que não implica glorificá-la.

Pra quem não sabe, sou gaúcha e acabei me lembrando hoje de uma visita que fiz à minha vó há alguns anos, em Cruz Alta. Ela mora no campo e sua casa é cheia de objetos antigos, coisas do século retrasado. Uma vez ela nos mostrou uma espada antiga de um familiar de várias gerações anteriores. Ao desembainhá-la comentou, com a voz calma e tranqüila que tem: “essa aqui degolou muita gente em guerra”. Eu e minha irmã só nos olhamos e, claro, ficou aquele ar sinistro, afinal pra pessoas que levam uma vida como a nossa (leia-se urbana) isso parece coisa de filme, livro… Uma realidade muito distante, quase irreal. Mas é real e faz parte da História.

Com tudo isso em mente, fui procurar na genealogia da família esse antepassado porque tinha uma vaga impressão dela ter falado na tal Revolução. Vale comentar que um parente chamado Amarante Carpes fez toda uma pesquisa desde o começo da minha família por parte de mãe e tenho uma cópia, datada de 1978, do documento. E lá encontrei José Gomes Portinho (1814-1886): um “simples soldado nas tropas farroupilhas” que mais tarde se tornou brigadeiro, lutando na Guerra do Paraguai. O “heroísmo” na guerra lhe rendeu o título de Barão de Cruz Alta, porém Portinho recusou “por alimentar idéias republicanas”. Aliás, este meu antepassado está na Wikipédia

Mas e o dono da espada? Bom, este foi seu filho Felipe Nery Portinho (1861-1941). No documento, segue a descrição (de forma muito passional pro meu gosto): “herdou de seu pai o espírito de luta, a bravura e o sentimento de liberdade, escreveu páginas gloriosas na história do Rio Grande do Sul, como General Maragato, em defesa de liberdade e da igualdade de direitos, contra os tiranos Borges de Medeiros e Firmino de Pula e Silva. E um homem legendário, cuja evocação e memória enche (sic) de orgulho e saudade todos os gaúchos”. Apesar da espada não ter sido usada na Revolução acabei achando um antepassado que lutou nessa guerra.

Muitos acham que a História é algo descrito sobre os outros, sem se dar conta de que ela é sobre todos nós. E que, de uma forma ou outra, esses eventos, fatos históricos estão muito mais ligados à nossa família do que se imagina. Afinal, quem faz História sou eu, você, nós.

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