Quando as palavras são desnecessárias

22 Jun

A história é simples: temos um filhote de dinossauro que passa os dias dormindo e comendo. E ponto. Ah, detalhe: é uma história em quadrinhos, no caso, japonesa (portanto, um mangá), e não há em qualquer momento legendas ou falas. Há somente imagens.

Gon

Com a descrição acima, a princípio, eu nunca me interessaria profundamente por “Gon – come e dorme”, de Masashi Tanaka. Entretanto, algo maravilhoso da vida, pelo menos pra mim, é você conhecer coisas (e também pessoas) que nunca esperou um dia encontrar. Mas, por coincidências ou surpresas isso acontece (e muito se você se permitir).

Num evento de cultura pop japonesa encontrei Gon e decidi comprá-lo, pois estava com um preço bem acessível e, como pesquiso cultura pop japonesa, sempre fico atenta ao que desconheço, afinal posso até não gostar de certas coisas, mas como pesquisadora não posso ignorá-las. Mal sabia eu que naquela hora estava adquirindo uma obra de arte, ao invés de um mero produto comercial e de massa.

Em 138 páginas, acompanhamos o dinossauro Gon em seu cotidiano: como dorme, como consegue se alimentar através da caça, sua tentativa de construir uma casa para si e, até mesmo, como consegue voar! Cada uma dessas etapas divididas em capítulos. O que parece ser enfadonho, torna-se incrível devido à riqueza das imagens, do desenho detalhado e das emoções retratadas nos animais (percebemos em suas faces seus medos, indignações, raivas…).

No terceiro capítulo (“Gon constrói uma mansão”), por exemplo, o dinossauro passa a observar um castor enquanto constrói sua barragem, como este e seus filhotes parecem felizes dormindo em tal local. Querendo o mesmo conforto, resolve então construir a sua própria moradia e acaba afetando toda a floresta ao seu redor. Gon faz uma mega represa, corta muitas árvores, afasta os animais de perto de sua construção e torna-se o inimigo dos habitantes locais. Embora a raiva dos “vizinhos” seja grande, nada podem fazer, pois Gon tem uma força enorme, derrotando todo tipo de animal que vem pela frente. E ele não perdoa: suas cabeçadas derrubam árvores, suas mordidas cortam um corpo no meio! E quando fica com raiva então…

Gon e seus "obstáculos"

A força desse mangá está na ação e, portanto, em sua representação. As imagens desenhadas com tanto detalhes tornam as paisagens bastante realistas, mesmo as feições dos animais e alguns acontecimentos serem um tanto inverossímeis. Trata-se de uma história em quadrinhos cujo deleite repousa no olhar, na sensação. Você ri, indigna-se, fica apreensivo junto com os personagens e extasia-se quadro a quadro com o que lhe é apresentado, com sua riqueza.

Este é um mangá em que não há uma única onomatopéia, fala ou palavra. A escrita só aparece no título do capítulo e, em sua página final, embaixo da figura de cada animal presente (são sempre dois e parecem fotos 3×4) com a designação de sua espécie, por exemplo, “salmão vermelho”. E só. Quando perguntado sobre a ausência total de balões de fala e mesmo onomatopéias em sua obra, Tanaka respondeu: “desde o início achei que não precisava, e que seria muito esquisito animais usarem a fala humana” (citação retirada do mangá). E, realmente, não há a necessidade de palavras, as imagens bastam pra tornar a obra uma verdadeira representante da arte sequencial e nos fazer lembrar, e confirmar, porque histórias em quadrinhos são a nona arte.

Apesar de possuir um total de 7 volumes, no Brasil foram publicados apenas os 3 primeiros, pela editora Conrad: “Gon – come e dorme”, “Gon – tubarões e carrapatos” e “Gon – desce o rio”. O preço original era de 22 reais, mas hoje é possível encontrar pela metade do preço ou menos.

As histórias em quadrinhos no Ocidente e no Japão

Gon me fez lembrar de um ponto interessante nas diferenças entre os quadrinhos ocidentais japoneses, em termos culturais e históricos.

"O garoto amarelo"

O que hoje conhecemos como história em quadrinhos é algo moderno. No Ocidente, a primeira HQ moderna surgiu com “The Yellow Kid”, de Richard Outcault, em 1896, no jornal norteamericano Morning Journal. Até então, não existia o balão de fala, e as imagens eram separadas das palavras, em legendas por exemplo. O personagem protagonista de Outcault usava um camisolão amarelo em que se inseriam as falas, tornando-se precursor ao trazer palavras pra “dentro” da imagem.

Já no Japão, a história em quadrinhos moderna surge em 1946 com o mangá “A Nova Ilha do Tesouro” (Shin Takarajima), de Osamu Tezuka. A inovação estava no uso da linguagem cinematográfica, pois os mangás costumavam a ter enfoques mais “teatrais” (por exemplo, cenas abertas e ausência de closes).

Se no Ocidente a incorporação da palavra/fala/som junto à imagem caracteriza a história em quadrinho moderna, no Japão, foi um maior dinamismo dado às imagens utilizando-se de elementos do cinema, como ângulos e enquadramentos diferenciados, que deu bases para o que conhecemos atualmente como mangá.

"A nova ilha do tesouro"

Curiosamente, a diferença da escrita japonesa (ideogramas) e das ocidentais (fonética) repercutiu, séculos atrás, em contextos diferenciados de impressão para ambos e, consequentemente, para os quadrinhos. No livro “Mangá – como o Japão reinventou os quadrinhos” (editora Conrad, 2006), Paul Gravett explica que “no Japão, imprimir no mesmo quadro imagens e palavras era mais fácil do que o Ocidente. Nos livros que usam o alfabeto romano, por exemplo, os blocos de textos eram compostos usando um alfabeto de 26 letras em tipos móveis. Qualquer ilustração esculpida na madeira teria de ser feita separadamente. Por causa disso, os primeiros editores de livros e folhetos em inglês preferiam evitar o trabalho e o custo e manter as imagens em um número mínimo, ou então excluí-las totalmente. Já no caso do Japão, os tipos móveis levaram mais tempo para serem adotados, isso porque o idioma exigia um número maior de letras e caracteres. Sendo assim, era mais fácil esculpir as palavras no mesmo bloco de madeira da ilustração. A conseqüência foi que, o texto pôde ser incorporado às imagens sem obstáculos, e os dois elementos puderam ser concebidos, impressos e lidos juntos, como nos quadrinhos”.

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